Chegada a esta idade em que já desisti
de contar as primaveras porque dei comigo a não gostar do resultado, concluo
que há coisas que mantenho em mim, arreigada que sou, pelos vistos e por
exemplo, à minha ingenuidade, o que faz com que mantenha a mania de privilegiar
nos outros, o melhor de si, e fazer prevalecer os aspectos mais nobres e
bonitos, em detrimento daquelas coisinhas chatas que, no fundo, todos temos,
uns mais que outros, mas enfim… a perfeição não existe, não é?
Mas - há sempre um “mas” quando penso em Vª. Exª. -
olho para si e começo a ter uma sensação de cansaço. É que cansa tentar
encontrar na sua personalidade as tais coisinhas chatas que todos temos. Cansa
não encontrar essas coisinhas mas sim um estado crónico de antipatia, repulsa,
profunda reserva, expressão facial desagradável – e como se diz em dialecto
feminino – o senhor é um homem feio (talvez a Srª. D. Teodora o achasse um galã,
mas mesmo só ela...).
Analisando a coisa pela rama, tem
os olhos pequenos, muito juntos e fundos, os cantos da boca descaídos e não,
não é da idade, em novo também tinha. Há na sua expressão facial um manifesto
esforço em ver, em visionar, em compreender e um esgar labial de onde se
conclui que não vê, não visiona e muito menos vislumbra, e também não entende,
ou o que percepciona, incomoda-o. Mas, na vida e nos cargos que ocupou, impôs-se
utilizar um conjunto de competências que, não as tendo, me faz interrogar: como
conseguiu, durante tanto tempo, vestir a pele que não era sua ou - vou mais
além - camuflar com a razoabilidade necessária, uma forma de estar tão peculiar?
Ao mesmo tempo que gastava,
anualmente, uma fortuna - um orçamento absolutamente escandaloso – lamentou a
parca pensão que ia ter, após impostos… e eu pergunto: por ventura sabe o que é
ter pudor? E no estrangeiro teve atitudes que nos envergonha, próprios de um
pacóvio impreparado e boçal… dos que arrecada pãezinhos e caixinhas de manteiga
no bolso, para comer depois, porque a ementa local era muito estranha ao palato
de um ocidental e vingou-se no pão com manteiga, na intimidade da suite
presidencial. Chegou cá e contou, aos microfones duma televisão - no seu
pensamento só nossa, uma coisa caseira - ao mesmo tempo que, a seu lado, a sua
esposa nos presenteava com um sorriso cúmplice, assim como quem chega de férias
e conta a peripécias da viagem, está a ver? Lembra-se?
Foram tantas, tantas histórias que
hoje, certamente recorda, quando se senta, ao fim da tarde, na marquise da
varanda que mandou fechar, no andar da travessa onde mora… Foram tantas, mas tantas,
as oportunidades que perdeu de ficar calado, como tantas e tantas vezes se
calou, quando todos esperávamos que soltasse um grito de revolta, indignação e
ordem! O senhor andou sempre em contramão, na rodagem do país que conduziu
tempo demais.
No fundo, nada disto nos deveria
causar surpresa. Quem é nomeado para um cargo porque foi fazer a rodagem do
carro e “passou por lá”, não augurava nada de bom, mas azar dos azares, foi a
Primeiro Ministro assim, do nada, sem “saber ler nem escrever”, num tempo de
vacas fartas e sem controlo, propício à prosperidade de meia dúzia, como mais
tarde se veio a saber, apesar da sua passagem incólume, por esta tempestade que
sacudiu, apenas sacudiu.
Mas, apesar de “bem tratado”, o
senhor sempre foi um inconsolado, é alguém que chora interiormente e lamenta
por entre as migalhas de bolo rei, a existência do regime democrático. O senhor
sente repugnância pela democracia e alinhou-se com ela porque não lhe restou
alternativa e, acima de tudo, porque nunca teve sequer brilhantismo intelectual
para criar e defender qualquer outra doutrina ideológica. A sua dimensão não
lhe permitiria nunca ser um ditador – isto se o povo tivesse deixado, coisa que
nunca faria - pelo que se o tentasse, também não iria muito para lá da
mediocridade. Comodamente, limitou-se a
engolir a Constituição e a tolerar os outros Órgãos de Soberania porque, de
outra forma, seria corrido. Entretanto, foi-se governando e deixando que outros
se governassem, os mesmos que lhe aplainaram o terreno para que a “rodagem do
seu governo” se fizesse sem percalços e, consequentemente, também a deles.
Terminada a função que, para a
esmagadora maioria dos portugueses estava a ser insuportável e a parecer eterna,
instala-se num palacete para continuar “a trabalhar”. E trabalha Vª. Exª. em quê,
que se possa considerar de útil? E faz Vª. Exª. o quê, em prol do país que continua
a sustentar estes seus delírios?
Mas, enquanto os portugueses se regozijavam de alívio e se esqueciam que existia, eis senão quando Vª. Exª. surge, num
anfiteatro duma universidade de verão e expele o resultado da náusea que o
acompanha, desde que abandonou a cadeira de veludo em Belém. Mandou recados,
como se os seus recados fossem tidos em conta – e aqui está, novamente, a sua
ausência de noção do real! Ninguém lhe liga e os que poderiam ser os seus
correlegionários, fingem-se de mortos, porque considerar algo que o senhor diz,
mancha qualquer político ou aspirante a tal.
E, como se esta reaparição não
fosse suficiente para recordar a todos nós o quanto foi bom vermo-nos livres de
Vª. Exª., eis que alguém dá pela sua falta no dia de votação autárquica. E qual é o espanto? Então, desobrigado de
actos democráticos, esperar-se-ia o quê, dum inconsolado e saudosista? Foi a um
casamento, mas o regar dos vasos das flores que decoram a marquise, também tinha
sido uma razão mais que plausível. Felizmente não é já exemplo para ninguém,
pelo que o exemplo que deu, só fica mal, unicamente, a Vª. Exª.
O senhor não presta, nunca prestou
e, tirados os filtros que as suas funções lhe impunham – quem o rodeava encarregava-se
de os assegurar mantendo-lhe a rédea curta e, mesmo assim, nunca conseguiu evitar
que se espalhasse de vez em quando –, vem ao de cima a verdadeira essência de
um homem que, se tivesse tido tempo de progredir na organização que em jovem se
alistou e ter apostado, seriamente, na carreira de “vigilante dos interesses do
Estado”, teria sido obrigado a partir, na manhã de um dia de Abril, para parte
incerta e ter-nos-ia feito um grande favor. Foi uma pena.
Lourdes Fragoso de Lima

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